Sunday, January 22, 2006

Hoje lembrei-me de mim. Pode acontecer, quando nos abanamos um pouco e demoramos a voltar à tona, perdermos o norte por uns momentos.
Lembro-me do que uma vez escrevi sobre começos. Sobre a sua frouxidão. Mas não me lembro de contemplar o poder dos inícios. Por mais frouxos, ou por menos nossos que os sintamos, são os inícios que nos cativam. É para eles o resto de um texto. Será por pena? Pena dos nossos patinhos feios? Talvez seja amor ao futuro, e por isso marchamos tão precipitada e requintadamente para ele. Não admira que no fim seja limitado, deixou de ser futuro. Isto se passa entre bocados do mesmo texto, dias do mesmo tempo, pessoas do mesmo espaço...
Cortamos vazas no presente, bem junto à raíz, que é onde mais dói a toda a gente. Pensamos que quanto mais limitarmos o nosso futuro, mais impacto teremos nos futuros dos outros, mas esse não é o impacto que faz falta. O impacto que faz falta viaja no sentido contrário, virá do presente dos outros e também a partir dele se expandirá o nosso futuro.
É sobre opções em aberto. Sobre não podar futuros com a ansiedade e a impaciência de quem quer envelhecer de uma única forma, envelhecer na mesma disposição de um qualquer agora, e continuar a viver sem presente. O único mau sentido para o envelhecimento.
Sobre as alternativas, as de maior e as de menor sentido. Pensar em não começar um texto só para não o chegar a condenar a uma vida finita espantar-me-ía bastante. Escrevê-lo já no seu meio, porque não? (é legal fazer aquecimentos longe dos papéis). Aqueles começos frouxos que nos cativam, motivam, enjoam..., para onde iriam então? E isto, dizendo que nada teriam de eternas, essas palavras de converseta, de apresentação e de censura (neste sentido).
Escrevam-se princípios, pois então. Se existem alternativas é porque não é isso que chega para nos privar dos futuros amplos. Ao contrário das nossas juventudes, que não nos deixam ver uma ideia agradável ao ouvido e aos dedos sem que, selvaticamente, a esgotem em três tempos e, imagine-se!, em uma só disposição! Pior de tudo, são essas juventudes que querem ter ideias cada vez mais novas, só para rejubilarem na destruição que se chama tão pomposamente, com rótulo e título ou não, Ensaio. Ideias tão descontraidamente descobertas na comunhão com o espaço, imediatamente decantadas, desmembradas, invertidas e RESUMIDAS (que atrevimento!) num qualquer número de linhas! Não, cruzes! Sejam muitas linhas ou poucas linhas, é fulcral não querer que sejam em quantidade suficiente para o que quer que seja! Porque é isso que fazem as disposições poda-futuros: Pronunciam-se arrogante e inequívocamente, emitindo pareceres que julgam ter o peso da definição, até chegarem a um fim que declaram não ser por sua culpa, um fim a que chamam assunto esgotado. Tão vincados podem ser esses pareceres, ao ponto de ser possível evoluir e não voltar a escrever sobre uma ideia esgotada! Não, por favor não, mil vezes não. É de primeira ordem não querer ser suficiente. O que se escreve, diz ou pensa não é suficiente. Se deixarmos isto entrar e nos permitirmos, de uma vez por todas, a insuficiência, a incapacidade de definição, chegaremos ao que quero chamar estóico reconhecimento.
Estóico sem uma ponta de pessimismo, é tudo futuro. Quando lá chegarmos logo se vê. Para já não brilha, não promete, nem assusta. Da forma que tento olhar, só o presente o faz. E no presente resolve-se.

0 Comments:

Post a Comment

<< Home